O silêncio como método: quando a violência contra a mulher vira rotina social

Opinião por Millena Sousa

A violência contra a mulher no Brasil não é um desvio de conduta isolado, nem um fenômeno episódico. Ela é estrutural, histórica e persistente. Mesmo com avanços legais importantes, o país segue convivendo com índices alarmantes de agressões, ameaças e feminicídios.

Em média, quatro mulheres são assassinadas por dia em razão do gênero. Um dado nacional que não se dissolve nas estatísticas: ele se materializa nos estados, nas cidades e, sobretudo, dentro de casa.

É nesse cenário brasileiro que se insere a realidade da Paraíba. Um estado que, nos últimos anos, tem avançado de forma concreta no enfrentamento institucional à violência contra a mulher, com políticas públicas estruturadas, ampliação de serviços e fortalecimento das redes de proteção. Ainda assim, como em todo o país, a violência insiste em se reproduzir porque encontra abrigo em algo que o Estado, sozinho, não consegue desmontar: a naturalização social do silêncio.

Em 2025, a Paraíba registrou 32 feminicídios. Trinta e duas mulheres assassinadas não por acaso, mas por uma lógica de controle, posse e dominação que quase sempre começa muito antes do crime extremo. Cada morte carrega uma sequência de sinais ignorados: ameaças, agressões psicológicas, perseguições, tentativas de silenciamento.

Os dados confirmam esse percurso. O estado tem registrado crescimento expressivo nos casos de stalking, ameaça e violência psicológica, modalidades que não deixam marcas visíveis, mas corroem a autonomia, a saúde mental e a liberdade das mulheres. Violências contínuas, que se instalam no cotidiano e passam a ser tratadas como “problema do casal”, “assunto privado”, “situação delicada”.

É preciso dizer com clareza: o Governo da Paraíba tem feito avanços importantes. O fortalecimento das Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher, a atuação da Patrulha Maria da Penha, o acompanhamento das medidas protetivas, a criação de indicadores específicos para mapear a violência de gênero e a integração entre segurança pública, assistência social e justiça demonstram que o enfrentamento à violência contra a mulher vem sendo tratado como prioridade de Estado.

O crescimento de mais de 30% nas denúncias registradas pelo Ligue 180 na Paraíba precisa ser lido também sob essa ótica. Não apenas como reflexo da violência existente, mas como sinal de maior confiança das mulheres nas redes de proteção e de um ambiente institucional que começa a estimular o rompimento do silêncio. Ainda assim, há um ponto em que a política pública encontra limite: a cultura social que insiste em deslocar a culpa para a vítima.

A violência não se encerra na agressão física. Ela continua no julgamento, na desconfiança, nas perguntas indevidas lançadas sobre a mulher que denuncia.

Na Paraíba, especialmente em cidades menores, romper o silêncio pode significar romper com vínculos familiares, comunitários e afetivos. Denunciar é, muitas vezes, enfrentar o isolamento social. O medo da exposição pesa tanto quanto o medo da violência. A vergonha — que nunca deveria existir — ainda recai sobre quem sobrevive.

Os dados são contundentes: a maioria dos agressores é alguém conhecido, geralmente parceiro ou ex-companheiro. A violência acontece dentro de casa, no espaço que deveria ser proteção. E, paradoxalmente, quando a mulher fala, é ela quem precisa se explicar. Por que demorou? Por que voltou? Por que não saiu antes? Perguntas que ignoram o medo real, a dependência emocional, financeira e o risco que envolve cada decisão.

Reconhecer os avanços institucionais não significa fechar os olhos para a realidade. Significa compreender que política pública é condição necessária, mas não suficiente.

O Estado abre caminhos, cria estruturas e oferece proteção. À sociedade cabe romper com a lógica do silêncio, acreditar nas mulheres e interromper a naturalização da violência.

A violência contra a mulher não é pauta privada nem exceção estatística. É um indicador civilizatório. Onde mulheres vivem com medo, algo está profundamente errado.

A Paraíba tem avançado no enfrentamento institucional. O desafio que permanece — e que é coletivo — é desmontar o silêncio que ainda transforma a violência em rotina social.

Porque viver não deveria exigir coragem. E denunciar não deveria custar tanto.

Texto por Millena Sousa

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