O Açude Epitácio Pessoa, conhecido popularmente como Açude de Boqueirão, é um dos principais reservatórios da Paraíba e peça-chave para o abastecimento hídrico do interior do estado. Localizado no município de Boqueirão, ele possui capacidade total superior a 466 milhões metros cúbicos de água e um espelho d’água que ultrapassa 26 quilômetros de extensão.
Com as chuvas intensas registradas principalmente entre março e abril deste ano, o volume do açude ultrapassou a marca de 50% da capacidade, chegando a aproximadamente 234 milhões de metros cúbicos. Somente no mês de abril, o manancial recebeu mais de 33 milhões de metros cúbicos de água, consolidando uma tendência de alta.
Os dados meteorológicos reforçam esse cenário: só em abril de 2026, o acumulado de chuvas em Boqueirão chegou a cerca de 197 mm, o equivalente a mais de 400% da média histórica para o período.
Esse conjunto de fatores reacendeu uma expectativa antiga da população: a possibilidade de o açude voltar a sangrar ainda este ano. Embora não haja confirmação técnica de que o vertimento vá ocorrer, o volume crescente aliado às chuvas acima da média no primeiro semestre coloca o reservatório em uma condição mais favorável do que nos últimos anos.
Historicamente, a última sangria foi registrada em 2011, quando o vertimento durou 202 dias. Desde a sua inauguração, o açude já sangrou 18 vezes. As principais sangrias ocorreram nos anos de 1967, 1968, 1973, 1974, 1975, 1976, 1978, 1981, 1984, 1985, 1986, 1989, 2004, 2005, 2006, 2008, 2009 e a última em 2011.
Uma obra que mudou o destino da região
A construção do Açude de Boqueirão começou ainda na primeira metade do século XX, em um contexto de enfrentamento às grandes secas que historicamente castigam o semiárido nordestino. A obra durou cerca de seis anos e mobilizou aproximadamente 3 mil homens em determinados períodos.
Inaugurado em 1957 pelo presidente Juscelino Kubitschek, o reservatório surgiu com parte de um conjunto de iniciativas voltadas à segurança hídrica da região. À época, Boqueirão ainda era uma vila, e a barragem representou um divisor de águas para o desenvolvimento local.
A proposta não era apenas armazenar água, mas transformar a realidade do Cariri. O projeto incluía a perenização do Rio Paraíba, permitindo o abastecimento contínuo das populações ribeirinhas e incentivando práticas agrícolas como a cultura de vazante, que aproveita as margens úmidas do açude para o plantio.
Com o passar das décadas, o Açude de Boqueirão se consolidou como um dos equipamentos mais importantes da Paraíba. Sua existência garantiu não apenas o crescimento urbano de cidades como Campina Grande, mas também a permanência de milhares de pessoas em uma região marcada pela irregularidade das chuvas.
Entre períodos de seca severa e momentos de abundância, o reservatório carrega um forte simbolismo. A sangria, por exemplo, vai além do espetáculo das águas: representa esperança, segurança e a certeza de que há reserva suficiente para enfrentar novos ciclos de estiagem.
Mesmo sem previsão concreta de novos episódios de transbordamento, especialmente diante da redução das chuvas no fim do período chuvoso, o açude segue como um retrato fiel da convivência do povo paraibano com o semiárido.
Mais do que uma obra de engenharia, Boqueirão é parte da identidade do Cariri. Um patrimônio que traduz, em cada variação de nível, a história de resistência de quem aprendeu a viver entre a escassez e a esperança.





