OPINIÃO: Quando a prioridade erra o alvo

Por Millena Sousa

Há algo profundamente revelador quando o debate público precisa parar para discutir quase dois milhões de reais destinados à prática de tiro esportivo.

Não porque o tiro exista. Não porque haja praticantes. Mas porque, em algum ponto do caminho, alguém decidiu que isso deveria disputar espaço dentro do orçamento público.

O Tribunal de Justiça da Paraíba suspendeu a liberação das emendas indicadas pelo deputado federal Cabo Gilberto Silva, do Partido Liberal, destinadas à Federação Paraibana de Tiro Prático. O valor se aproxima de dois milhões de reais. Dinheiro público. Dinheiro coletivo. Dinheiro que não pertence a paixões individuais.

A justificativa veio sem rodeios: cumprir promessa feita a eleitores amantes do tiro. Transparente, sem dúvida. Mas também didática — porque revela uma confusão cada vez mais comum entre mandato público e afinidade pessoal.

O mandato representa todos. O orçamento, mais ainda.

Emenda parlamentar não deveria funcionar como programa de recompensas para nichos ideológicos ou grupos de identificação. Não é vaquinha entre amigos. Não é financiamento coletivo de preferências. É recurso público que nasce do imposto pago até por quem jamais chegará perto de um clube de tiro.

E é aqui que o debate deixa de ser técnico e passa a ser moral.

A política não se mede apenas pelo que é permitido fazer, mas pelo que faz sentido fazer. Direcionar milhões para incentivar uma prática esportiva específica enquanto tantas demandas coletivas competem por atenção não é exatamente ilegal — mas soa, no mínimo, desconectado da realidade compartilhada pela maioria.

O episódio escancara uma lógica perigosa: a do orçamento moldado por convicções pessoais. Como se governar fosse apenas ampliar aquilo em que se acredita, e não equilibrar aquilo de que a sociedade precisa.

No fim, sobra uma pergunta simples, quase constrangedora:
quando o dinheiro é de todos, ele pode servir ao entusiasmo de poucos?

Porque política pública não deveria funcionar como mira ajustada por preferência individual.

E quando funciona, o erro não está no alvo. Está na escolha de quem apertou o gatilho.


Texto por Millena Sousa

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